Opinião | Um Casal (Im)Perfeito. Amor gourmet: bonito, caro, sem sabor
- Atenção: o texto que se segue pode conter spoilers! -

Imagem: Olivia Colman & Benedict Cumberbatch by Jennifer McCord / The Times
The Roses (título nacional: Um Casal (Im)Perfeito) apresenta Ivy (Olivia Colman), uma chef em ascensão, e Theo (Benedict Cumberbatch), arquitecto em declínio e pai a tempo inteiro, cujo “casamento perfeito” começa a desmoronar. Ambição, ressentimento e jogos de poder transformam a casa de sonho no palco de uma guerra doméstica.
The Roses é uma obra que deslumbra à superfície, mas hesita em mergulhar nas águas mais profundas da emoção. A reinterpretação do romance A Guerra das Rosas, de Warren Adler — pelas mãos de Jay Roach e com argumento assinado por Tony McNamara, mestre da sátira e da tensão emocional, cuja escrita equilibra acidez e humanidade com precisão cirúrgica — promete uma comédia negra sobre o divórcio, mas entrega sobretudo um exercício de estilo: refinado, sim, mas emocionalmente contido.

Roach, conhecido por navegar entre o humor absurdo (Austin Powers) e o drama político (Game Change), revela aqui uma mão segura e um olhar elegante. A casa onde decorre a acção é mais do que cenário: é metáfora, campo de batalha. A direcção de fotografia e o guarda-roupa de PC Williams reforçam essa leitura, desenhando tensões com precisão visual. A abertura do filme, com elementos cuidados e visualmente sugestivos, estabelece um tom sofisticado, mas que nem sempre encontra correspondência no desenvolvimento narrativo.
O elenco é irrepreensível. Olivia Colman e Benedict Cumberbatch dominam cada cena com contenção e ironia. A empatia entre Ivy e Theo é tensa, estratégica, nunca romântica — e isso é, curiosamente, o que há de mais honesto no filme. Andy Samberg e Kate McKinnon — mestres na arte do improviso — oferecem alívio cómico competente, mas os seus papéis parecem encaixados num molde demasiado previsível. Já Allison Janney, num relâmpago de presença, deixa uma marca que o argumento não soube explorar.

O problema de Um Casal (Im)Perfeito não está na execução, mas na falta de risco emocional. Tudo funciona, mas pouco se sente. O filme observa os seus personagens com distância clínica, como se temesse envolver-se demasiado. E essa escolha, embora coerente com o tom satírico, acaba por limitar o impacto.
É um filme bonito, inteligente, tecnicamente sólido. Mas falta-lhe sangue — aquele calor humano que transforma o bom em memorável.
Imagens: Searchlight Pictures
ana sofia santos: agirlonfilm@sapo.pt


