Opinião | The Fantastic Four: First Steps. Um reboot estilizado, mas sem alma

The Fantastic Four: First Steps, lançado a 25 de julho de 2025, apresenta uma nova abordagem ao icónico grupo da Marvel, transportando-o para uma Terra alternativa e ambientada nos anos 1960. Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Ben Grimm ganham poderes após uma missão espacial e enfrentam Galactus, cujo arauto é uma nova encarnação do Silver Surfer: Shalla‑Bal, interpretada por uma mulher. A narrativa acompanha a equipa na tentativa de proteger o planeta e o bebé prestes a nascer de Sue, que poderá tornar-se um ponto focal cósmico para Galactus.
Pedro Pascal interpreta Reed Richards / Mr. Fantastic, um cientista brilhante e líder natural. Embora traga uma presença firme ao papel, o argumento pouco explora a sua dimensão emocional ou o potencial carismático do ator. Vanessa Kirby, como Sue Storm / Mulher Invisível, oferece uma interpretação serena e subtil. O facto de representar a primeira super-heroína grávida num filme da Marvel é relevante, mas essa faceta é tratada de forma superficial. Curiosamente, a atriz surgiu grávida na estreia do filme, o que levanta a dúvida sobre se essa condição pessoal influenciou a inclusão da gravidez da personagem no argumento — uma escolha que, embora promissora, não é devidamente explorada. Joseph Quinn assume o papel de Johnny Storm / Tocha Humana, com carisma e humor eficaz em momentos pontuais, embora sem uma verdadeira evolução da personagem. Ebon Moss‑Bachrach, como Ben Grimm / Coisa, apresenta uma interpretação melancólica, que infelizmente resvala para a caricatura devido à limitação do texto — uma caricatura que desperdiça a veia bem-humorada e versátil do ator.
Julia Garner, interpreta Shalla‑Bal / Silver Surfer numa ousada inversão de género. Apesar da sua presença visual marcante, a personagem surge como mero adereço digital, sem carga dramática significativa. Ralph Ineson encarna Galactus, o vilão cósmico, mas a sua presença é fugaz e pouco ameaçadora. A armadura em motion-capture não consegue conferir à personagem a gravidade e imponência necessária, tornando-a apenas numa espécie de ameaça decorativa.


Sob a realização de Matt Shakman, veterano de WandaVision, o filme procura homenagear a estética retrofuturista dos anos 60, com influências visuais de Kubrick, cenários práticos, miniaturas e lentes vintage. O resultado visual é sólido e estilizado, mas a narrativa não acompanha essa ambição estética. Falta-lhe leveza e humor, densidade e uma direção emocional coesa, o que surpreende vindo de um realizador com experiência tanto em drama como em comédia.


Apesar da reimaginação temporal ser competente em termos de cenografia e guarda-roupa, não acrescenta substância à história. O enredo avança de forma previsível e superficial. A escolha de transformar Silver Surfer numa mulher é ousada, mas revela-se vazia. Julia Garner como Shalla‑Bal representa um ponto de inovação, mas a personagem carece de arco narrativo e impacto emocional — a ideia permanece meramente estética. Galactus, enquanto vilão, é demasiado fraco. A sua presença não gera tensão nem contribui para uma narrativa mais profunda.
Existem momentos de química e humor, sobretudo entre Johnny e Ben, e o grupo demonstra familiaridade e camaradagem. Contudo, isso não compensa a ausência de estrutura dramática ou de um propósito narrativo sólido. O guião está carregado de exposição e carece de conflito genuíno. A história arrasta-se, sem originalidade ou frescura.

The Fantastic Four: First Steps prometia ser um reinício ousado no universo Marvel, mas acaba por repetir o padrão das anteriores adaptações falhadas da equipa. Apesar de contar com um elenco competente e uma estética retro apelativa, o filme tropeça numa narrativa fraca e num desenvolvimento superficial das personagens. A inclusão de Shalla‑Bal como aposta na diversidade de género é subaproveitada e não acrescenta profundidade ao enredo. No fim, o que sobra é uma visão estilizada mas sem coragem, longe da riqueza e impacto que os fãs conhecem das bandas desenhadas criadas por Stan Lee e Jack Kirby — as únicas versões verdadeiramente memoráveis do Quarteto Fantástico.
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ana sofia santos: agirlonfilm@sapo.pt


