Opinião | Jurassic World: Rebirth. Nostalgia com esteroides e ADN alterado
- Atenção: o texto que se segue pode conter spoilers! -

Jurassic World: Rebirth, o mais recente capítulo da eterna saga dos dinossauros, chega com promessas de regresso às origens, nostalgia sonora e um elenco de luxo. Mas será que isso basta para justificar mais uma viagem ao Parque? A resposta, infelizmente, é menos entusiasmante do que se esperava.
Cinco anos após os acontecimentos de Dominion, a humanidade vive numa trégua instável com os dinossauros, agora confinados a zonas selvagens protegidas. A farmacêutica ParkerGenix vê nos dinossauros uma oportunidade de negócio e envia uma equipa liderada por Zora Bennett (Scarlett Johansson) a uma ilha remota no Pacífico para recolher ADN. Neste espaço remoto, não só descobrem monstros marinhos gigantes como se deparam com perigosos dinossauros mutantes criados em segredo — incluindo o novo superpredador Distortus Rex.
Gareth Edwards regressa à realização após The Creator (2023), mantendo a sua assinatura visual: mistura de CGI com efeitos práticos, cenários imponentes e tensão bem construída. Conhecido por Monsters, Godzilla (2014) e Rogue One, Edwards é visualmente competente, mas aqui vê-se refém de um argumento reciclado e previsível. O guião, assinado por David Koepp — veterano da saga original (Jurassic Park, 1993) — parece preso a fórmulas gastas, sem ousadia ou inovação narrativa.


Apesar de reunir nomes de peso, o filme nem sempre consegue tirar partido do seu elenco:
- Scarlett Johansson (Zora Bennett) interpreta a protagonista com a segurança habitual, mas a personagem sofre com falta de profundidade emocional.
- Mahershala Ali (Duncan Kincaid), duas vezes vencedor do Óscar, surge num papel secundário como um soldado com passado traumático. A sua presença eleva algumas cenas, mas é pouco explorado.
- Jonathan Bailey (Dr. Henry Loomis), o paleontólogo da equipa, destaca-se pela sensibilidade e inteligência que confere à personagem, evitando a banalidade.
- Rupert Friend (Martin Krebs), representante corporativo da ParkerGenix, é um vilão previsível, mas eficaz, com algumas nuances morais.
- Manuel Garcia-Rulfo, conhecido por The Lincoln Lawyer [a série], é talvez a surpresa mais agradável do elenco. Tem carisma e presença, mas é subaproveitado — um desperdício evidente.
- Luna Blaise, Audrina Miranda e David Iacono interpretam Teresa, Isabella e Xavier — dois adolescentes e uma criança que formam o núcleo mais emocional e surpreendentemente eficaz da narrativa. Teresa (Blaise) assume um papel de liderança quando o pai, Reuben Delgado (Manuel Garcia-Rulfo), fica ferido, revelando uma força interior que contrasta com o caos à sua volta. Isabella (Miranda), a irmã mais nova, equilibra inocência com coragem, protagonizando momentos de tensão genuína, como o icónico confronto com o T-Rex durante a cena da jangada. Xavier (Iacono), o namorado de Teresa, começa como um elemento cómico e aparentemente inútil, mas acaba por se revelar essencial em momentos críticos — com várias falas improvisadas que lhe conferem autenticidade e carisma. A dinâmica entre estes três jovens e Garcia-Rulfo é bem construída, com química natural e conflitos realistas, oferecendo ao filme uma camada de humanidade que contrasta com os excessos genéticos da trama.

Dinossauros mutantes? Não, obrigada. É precisamente aqui que o filme falha mais redondamente: a insistência em apresentar dinossauros geneticamente alterados, como o Distortus Rex e os Mutadon, começa a roçar o absurdo. A verdade é que - nesta saga - o público só precisa de dois vilões para sair satisfeito da sala de cinema: T-Rex e Velociraptores. São estas criaturas clássicas que continuam a dominar as cenas com mais tensão, emoção e adrenalina. Tudo o resto é… ruído!
Há que dar mérito ao foco nos dinossauros marítimos — sobretudo o Mosasaurus, que protagoniza algumas sequências intensas e visualmente deslumbrantes. Estas cenas são, sem dúvida, as mais bem conseguidas em termos de espetáculo e escala.


Sempre que ouvimos os acordes do tema clássico de Jurassic Park, é impossível não sentir um arrepio. A banda sonora de Rebirth, composta por Alexandre Desplat, presta homenagem a John Williams com respeito e sensibilidade. É, talvez, o elemento mais emocional do filme — uma âncora nostálgica que continua a funcionar.
Jurassic World: Rebirth entretém — mas pouco mais. É uma repetição de fórmulas com algumas boas ideias visuais e um elenco competente, mas que não consegue escapar ao peso de um guião previsível. A aposta em dinossauros mutantes revela-se desnecessária e, por vezes, ridícula. Se os produtores soubessem que bastava o T-Rex e um bom raptor para nos deixar felizes, talvez tivéssemos aqui um filme melhor.
Apesar de momentos pontuais de tensão e espetáculo, o filme tropeça nos mesmos erros que marcaram os anteriores: exagero visual, vilões artificiais e personagens pouco desenvolvidas. Com menos mutações e mais respeito pelos predadores pré-históricos que nos fizeram amar esta saga, Rebirth poderia ter sido muito mais.
Imagens: Divulgação / IMDb
ana sofia santos: agirlonfilm@sapo.pt


